
A rede Lightning: Uma solução de escalabilidade e de evolução para a Bitcoin
Ao longo dos anos, a Bitcoin tornou-se na maior e mais famosa criptomoeda. A sua descentralização, confiança e segurança, fizeram com que fosse amplamente adotada. No entanto, à medida que a sua popularidade aumentou, também aumentaram as suas limitações.
Durante períodos em que se está a realizar um elevado número de transações, a rede pode tornar-se demasiado congestionada e tornar os tempos de confirmação das transações mais elevados, assim como fazer aumentar consideravelmente as taxas de transação. Se um utilizador da rede não incluir uma taxa de transação elevada o suficiente, uma transação pode demorar dias a confirmar-se.
Esta falta de escalabilidade torna-se ainda mais aparente quando comparamos a capacidade da rede Bitcoin de processar apenas sete transações por segundo face às 65 mil transações por segundo que a rede Visa consegue processar. Para micro-transações do dia-a-dia (compra de café ou pão) a rede Bitcoin não é capaz de dar resposta.
Alguns apoiantes de moedas digitais alternativas (altcoins) sugerem abandonar a Bitcoin e adotar redes maiores e com mais capacidade de escalar. No entanto, nenhuma destas alternativas tem o mesmo nível de confiança e segurança como a rede Bitcoin. Para além disso, muitas altcoins teriam exatamente os mesmos problemas de escalabilidade da rede Bitcoin, caso alguma vez atingissem o volume de transações que neste momento ocorrem na rede Bitcoin.
De forma a resolver este problema, programadores desenvolveram a rede Lightning. Esta solução de segunda camada (Layer 2) permite transações instantâneas, quase gratuitas sem sacrificar a segurança da blockchain principal.
O Mecanismo: Canais de Pagamento e Transações Off-Chain
A rede Lightning foi originalmente proposta por Thaddeus Dryja e Joseph Poon em 2015 e opera sobre o conceito de canais de pagamento. Ao invés de gravar todas as pequenas transações, como por exemplo, a compra de um café, na blockchain principal da Bitcoin, os utilizadores operam um canal privado entre ambos.
Para abrirem um canal, os participantes enviam um depósito inicial para um endereço multi-assinatura (multisig) na blockchain. Esta “transação original” é a única coisa que os mineradores precisam de confirmar no início. Uma vez aberto, pode ocorrer no canal qualquer número de transações fora da blockchain principal, tão rápido quanto for possível às duas carteiras comunicarem. Estas transações podem ser vistas como promessas ou atualizações ao balanço contabilístico que fica entre as duas partes, de forma a evitar congestionamento e taxas na rede principal.
Uma preocupação recorrente com transações fora da blockchain ou rede principal é a confiança. Para fazer face a esta preocupação, a rede Lightning inclui um mecanismo de proteção contra fraude. Quando um canal é aberto, o depósito de segurança atua como colateral. Se uma das partes tentar defraudar ou se retratar do saldo acordado entre ambos, a rede está desenhada para penalizar o atacante atribuindo todo o saldo à parte honesta. Estas penalizações duras procuram dissuadir pessoas mal intencionadas para assegurar que o sistema não depende de confiança em terceiros e permanece seguro.
O poder do efeito de rede
A verdadeira utilidade da rede Lightning encontra-se na capacidade de direcionar pagamentos. Não é necessário um canal direto com a pessoa a quem se quer pagar. Ao invés disso, a rede permite “saltar” através de uma série de canais de pagamento conectados entre si. Desde que exista um caminho para conectar os utilizadores que desejam transacionar entre si, o pagamento pode ser encaminhado automaticamente através de canais intermediários. Este efeito de rede transforma uma série de ligações privadas num sistema global rápido e com taxas reduzidas capaz de conectar quaisquer utilizadores.
Liquidação final e o futuro da Bitcoin
Quando ambas as partes concluem as transações, o canal de pagamento fecha-se. Nesse momento, a rede Lightning agrupa todas as transações que ocorreram desde a abertura até ao fecho do canal, calcula o balanço final e transmite uma única transação de fecho para a blockchain principal da rede Bitcoin. Esta liquidação final assegura que o registo principal representado pela blockchain permanece atualizado, mas apenas foram necessárias processar duas transações (abertura e fecho do canal), ao invés de centenas de pequenas transações.
A capacidade teórica da Lightning Network é estimada entre 25 e 40 milhões de transações por segundo, um valor significativamente superior ao das redes de pagamento tradicionais. Para além disso, uma stablecoin é um tipo de criptomoeda cujo valor está indexado a um ativo estável, geralmente uma moeda fiduciária, com o objetivo de reduzir a volatilidade. Neste contexto, a USDT, que é a maior stablecoin e está indexada ao dólar, já suporta transações através da Lightning Network, o que evidencia o potencial desta solução de segunda camada para a escalabilidade do ecossistema Bitcoin e para a sua adoção em cenários de pagamentos do dia a dia.
O que começou como apenas um conceito experimental cresceu e tornou-se numa realidade prática e fácil de usar. Hoje, a rede Lightning é suportada por mais plataformas do que nunca, o que a torna uma ferramenta viável para pagamentos do dia-a-dia. Ao passar a grande maioria do processamento para fora da rede e blockchain principais, a rede Lightning permite-nos desfrutar dos benefícios da segurança da Bitcoin, ao mesmo tempo que elimina o congestionamento, os elevados tempos de processamento das transações e as taxas.